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SAMORA EM MOVIMENTO

" A INFORMAÇÃO NO MOMENTO "

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O CONCELHO DE BENAVENTE CRESCEU, MAS NÃO TEM POLITICAS URBANAS

 

ENTREVISTA AO JORNAL MIRANTE

 

O concelho de Benavente precisa de políticas urbanas para responder ao forte crescimento populacional que se tem verificado nos últimos anos. Esta é uma das críticas apontadas pelo vereador do PSD da Câmara Municipal de Benavente, José da Avó, de 37 anos. Mais do que construção, o concelho precisa agora de trazer os novos residentes para a vida local. Para resolver os problemas de trânsito e de transportes, o comboio seria a principal solução, tal como a construção de circulares urbanas entre Samora Correia e Benavente, que retirassem o trânsito de dentro das localidades. O vereador que evita beber água da rede pública, admite que em termos de separação dos lixos só se tem preocupado com a reciclagem do vidro. Mensalmente abdica de 20 euros das senhas de presença porque considera que a política é um serviço público. Filho de ganadeiros, vibra com a Festa Brava e não trocaria Samora Correia, onde vive, por nenhuma outra cidade.

 

Nas eleições de 2009 disse que entrava na corrida para vencer. Perdeu mas ficou como vereador da oposição, situação que não aconteceria se já estivesse em vigor a nova lei eleitoral que prevê executivos de um só partido. Concorda com o que aí vem?

 

Por um lado teremos um executivo homogéneo que poderá trabalhar de acordo com o programa que apresentou sem quaisquer entraves. Por outro perde-se a voz dos minoritários que podem alertar para outros caminhos a serem seguidos. O meu trabalho tem contribuído para alguma discussão em torno de novas ideias para a câmara.

 

Não concorda então?

 

Deixava os minoritários com alguma capacidade para intervirem na autarquia desde que não interferissem com o normal funcionamento do executivo.

 

E em relação à extinção de juntas de freguesia, diminuição do número de autarcas e de chefias nos municípios que o Governo do seu partido tem vindo a anunciar.

 

Os cortes têm de ser transversais a toda a sociedade perante a crise que o país atravessa. Nas autarquias locais tem de haver mais poupanças e as guerrilhas antigas em torno de lugares de dirigentes devem ser esquecidas. É claro que os cortes não podem ser às cegas porque as freguesias desempenham um papel muito importante na relação com o munícipe.

 

Qual é actualmente o assunto que mais o preocupa enquanto vereador?

 

Benavente foi o concelho do distrito de Santarém que mais ganhou população na última década. Precisamos de saber como gerir toda esta massa humana que vem para um concelho que era tipicamente rural e agora se está a transformar em urbano. Não temos ainda políticas urbanas. Temos de passar para a fasquia de um concelho urbano. Na educação nota-se já um aumento do insucesso escolar e o acesso às drogas e álcool também tem aumentado. Para além de um desligamento próprio de quem não é da terra e não se chega sequer a ligar à vida local. Vêm apenas dormir a casa.

 

Como é que podemos ligar os novos residentes à comunidade local?

 

Temos de trazê-los para as iniciativas que se vão organizando. O associativismo pode ser o motor de ligação entre as pessoas. O município de actividades tauromáquicas pode ser também um município de actividades ligadas aos toiros e a outras coisas.

 

Não teme que o concelho perca a identidade com este crescimento?

 

Já está a acontecer, especialmente em Samora Correia. Há 15 anos encontrávamos gente nas ruas a passear à noite. Hoje isso já não acontece porque as pessoas estão a perder as ligações à terra e ao vizinho. Se conseguíssemos que todos os munícipes voltassem a ter a porta de casa aberta, podíamos dizer que quem estava no poder tinha cumprido a sua missão. O nosso problema já não tem a ver com a construção ou as infra-estruturas disponíveis embora estas últimas já comecem a ficar saturadas. Temos de nos concentrar agora em formar pessoas melhores para enfrentarem o futuro.

 

Na altura da sua candidatura criticou a CDU pelo aumento do betão no concelho de Benavente. Agora que o sector da construção civil está em sérias dificuldades e as autarquias não têm dinheiro para fazer obra, deve estar satisfeito porque se concretizou o seu desejo.

 

A minha crítica sempre foi contra o betão desorganizado que descaracteriza o nosso concelho. Não sou contra a urbanização desde que seja bem planeada.

 

Se a crise não tivesse rebentado e o senhor tivesse sido eleito como é que respondia às solicitações das pessoas que querem novas casas, escolas, sedes para os clubes ou mais estradas alcatroadas? Não aprovava novas licenças de construção e mantinha as estradas em terra batida?

 

É uma questão de sensibilidade, de tentar procurar um equilíbrio entre as construções. Não gostava de morar numa casa onde mal abrisse a janela tivesse o vizinho da frente a olhar para mim.

 

As empresas de transportes estão em dificuldades e não conseguem dar resposta às populações, as pessoas não abdicam do transporte próprio, a Estradas de Portugal está na falência e o trânsito que atravessa Benavente e Samora Correia continua a ser um problema. Tem alguma ideia para resolver esta questão?

 

Se tivéssemos a linha de comboio a passar pelo concelho penso que 80 por cento dos nossos problemas com os transportes ficariam resolvidos. Não nos podemos queixar das vias de comunicação porque o município de Benavente está ligado às principais auto-estradas da região. Ao nível das infra-estruturas deveríamos construir duas circulares externas que ligassem Benavente a Samora Correia para tirar todo o trânsito de dentro das localidades. Em termos de transporte público a regularidade deveria ser maior.

 

Quando vai para Lisboa deixa o carro em Vila Franca de Xira e utiliza o comboio?

 

Não, desloco-me sempre de carro. Costumo usar os transportes públicos se estiver em Lisboa porque é mais barato e posso ir fazendo outras coisas. Nunca saio do trabalho antes das 19h00. Os empregos são cada vez mais exigentes e os transportes públicos não acompanharam esta mudança de ritmo de vida.

 

A Câmara Municipal de Benavente tem uma boa política de apoio social?

 

Mal seria se uma câmara do Partido Comunista não tivesse bons apoios sociais… Concordo com os apoios que vão sendo atribuídos, mas o crivo das atribuições desses mesmos apoios tem de ser refinado, como o próprio presidente reconheceu na última reunião de câmara.

 

Tem conhecimento de situações de falsos carenciados?

 

Não me dou ao trabalho de ir ver os nomes. Num concelho com 30 mil habitantes já vai sendo difícil reconhecer as famílias. Muitas vezes vêm-me contar situações de pessoas que recebem apoios e moram em boas casas e têm bons carros. Tenho sempre o cuidado de avisar a autarquia.

 

É um dos oito mil utentes do concelho sem médico de família?

 

Há dois meses fui reincorporado na lista de um médico em Samora Correia. Estive três anos sem médico de família e é uma das questões que mais me preocupa de momento porque continuamos sem saber se vamos perder alguns serviços de saúde.

 

Quando está doente recorre ao Serviço Nacional de Saúde ou ao seu seguro de saúde?

 

Em 15 anos de trabalho nunca utilizei o seguro de trabalho da empresa. Não tenho andado muito doente e confio no Serviço Nacional de Saúde. Sempre fui bem atendido tanto na Unidade de Saúde Familiar de Samora Correia como no Serviço de Atendimento Permanente de Benavente.

 

Levou a uma das últimas reuniões de câmara um vídeo onde mostrava a água barrenta a sair de uma torneira. Em casa bebe água da rede pública ou mineral, engarrafada?

 

Há muitos anos que só bebo água da rede pública quando não tenho alternativa. Tenho sempre água engarrafada. Lembro-me sempre de ver de vez em quando a água a sair das torneiras com várias cores e mesmo que me digam em reuniões de câmara que posso beber água amarela eu desconfio muito. Concordei com a adesão às Águas do Ribatejo porque as autarquias já não têm dinheiro para os investimentos necessários. Só que o serviço não melhorou na mesma proporção que a tarifa. Neste momento garantimos mais de 50 por cento da facturação da empresa, mas os investimentos foram parar a Coruche, Almeirim ou à Chamusca porque tinham taxas de cobertura de água e saneamento que eram nulas em muitas zonas.

 

Em Julho levantou o problema da recolha de resíduos sólidos no concelho. Na altura o vereador responsável pelo pelouro disse que, ainda há muitos munícipes que não separam os seus lixos e que colocam no contentor e fora dele, tudo e mais alguma coisa. As pessoas só têm direitos? Não têm deveres?

 

As pessoas não fazem a separação dos lixos e chegam a esconder determinado tipo de lixo, como monos, em contentores mais distantes. Só podemos resolver este problema através da sensibilização e se for preciso através da coacção. Os serviços de recolha também têm de operar mais nas zonas onde os problemas são maiores.

 

Em casa tem o cuidado de separar o lixo?

 

Só separo os vidros. Eu pecador me confesso. Vivo sozinho, vou a casa praticamente para dormir e a produção de lixo é tão diminuta que não justifica ainda uma separação.

 

Se as taxas de saneamento e de resíduos aumentam ou mesmo o preço da água e o povo protesta, está ao lado do povo?

 

Ao longo dos anos as câmaras não repercutiram nos munícipes estes custos e agora é já um acumular de anos anteriores. O aumento dos preços vai continuar nos próximos anos, mas não pode ser de outra maneira.

 

 

Passagem de toiros pelas ruas de Benavente deve manter-se

 

Nasceu numa família de ganadeiros (Casa Agrícola Avó), cresceu com os toiros bravos. Sabe andar a cavalo?

 

Quando era miúdo ainda consegui andar, mas depois ganhei medo. Lá em cima só vejo uma cabeça, não tenho volante ou travões e ainda por cima um cavalo pensa (risos).

 

Depois de criar um toiro, não custa vê-lo a morrer na arena?

 

Muitas pessoas não compreendem realmente como é que depois de tratar um toiro com tanto carinho vamos rejubilar quando o vão picar e tudo o que se segue. A tourada é o culminar de uma carreira que o animal teve. E cumprir a sua função é um orgulho para qualquer ganadeiro.

 

A quantas touradas assiste durante uma temporada normal?

 

Por ano assisto a uma dúzia.

 

Vai assistir a algumas a Espanha?

 

Já fui mais a Espanha. Gosto muito da tourada à espanhola. A última que vi foi em Pamplona. Não me peçam é para ir ver muita corrida apeada em Portugal. O espectáculo em Portugal tem de ter os forcados e o espectáculo da corrida a pé tem de terminar com a morte do toiro e a sorte de varas.

 

Qual é a melhor praça de toiros do país?

 

Não conheço todas, mas a renovação do Campo Pequeno tornou-a um anfiteatro muito bom para todo o tipo de espectáculos. Continuo a preferir as praças da zona, como a de Vila Franca de Xira por causa de toda a tradição e a de Alcochete porque gosto muito do modo como o público vive os toiros.

 

Na última edição da Festa da Amizade em Benavente morreu uma idosa apanhada por um toiro. Este tipo de iniciativas com animais bravos nas ruas deve manter-se?

 

Um espectáculo destes tem de manter-se para preservar a tradição. O momento alto também é a incerteza do que vai acontecer, toda a emoção e adrenalina que se gera. O que temos de fazer é reforçar as condições de segurança, bloquear melhor os possíveis locais de fuga dos toiros e as pessoas têm de saber o perigo de um espectáculo destes, especialmente as que vêm de fora.

 

* Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE esta semana.

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