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SAMORA EM MOVIMENTO

" A INFORMAÇÃO NO MOMENTO "

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HOMENAGEM AO CAMPINO FRANCISCO PAULINO

 

Francisco Paulino foi o campino escolhido para receber a homenagem nas festas de Samora 2008

 por Sergio Perilhão

Sérgio Perilhão

De entre os personagens que integram a Festa Brava, o campino ocupa (ou devia ocupar) um lugar de destaque, porque constitui uma particularidade na sua génese e tem (ou devia ter) uma importância extrema na contribuição efectiva.

Hoje, partilho convosco alguns retalhos de mais uma vida de um desses ribatejanos a quem o futuro ditou um caminho, uma paixão e um entusiasmo que culminaram na entrega total à sua profissão, que é arte e sabedoria de experiência feitas, moldadas pela vida acre do campo e das dificuldades próprias do tempo em que nasceu e cresceu. O bisavô, o avô e o pai entregaram-se também à faina do campo e ao maneio do gado, assumindo com toda a plenitude ser e estar sempre ao serviço de uma vida, no respeito e na entrega ao trabalho, ajudando a escrever algumas das páginas da nossa história rural, que marca a tradição portuguesa das artes e ofícios.

Nasceu na vila de Samora Correia, a 1 de Abril de 1940. De tenra idade, aos sete anos, começou por acompanhar o pai, como seu ajuda, guardando os bois da tralhoada. O velho Anacácio Paulino era, ao tempo, um exímio tralhoeiro na Casa de Estêvão de Oliveira, no Condado de Pancas, na Herdade de Camarate. Como não se ganhava para sapatos, o jovem Francisco andava descalço. A roupa que trazia no corpo era remendada. As dificuldades eram muitas. Até aos nove anos acompanhou o pai com a atenção e o entusiasmo de quem não quer perder pitada da sabedoria que podia recolher dos mais velhos. Dos seus irmãos foi o único que seguiu este caminho… “e agora, penso que, da família dos Paulinos, incluindo os meus primos, nesta arte sou o último!”

Continuou ligado à Casa de Estêvão de Oliveira até aos treze anos. Com a separação da Casa, o pai mudou-se para Vale Carneiro, ficando então ligado a um dos herdeiros, como abegão. O Francisco, a dada altura, ficou responsável pelos toiros… “eu tratava dos toiros que, - ainda me lembro,- eram todos “jaboneros”. (...) eu e a minha mãe dávamos-lhes a ração e tínhamos uma amizade com eles como se fossem crianças… andávamos sempre à vontade... seguiam a gente a berrar, à espera de lhe pormos o comer...”

Os patrões venderam a ganadaria… “os outros trabalhos do campo também se reduziram muito, e nós tivemos que ir embora.Veio a tropa e fui para Angola. Regressado do então Ultramar Português, Francisco Paulino entrou na Casa Oliveiras, Irmãos como maioral das éguas; seguiu-se a Companhia das Lezírias como desbastador dos poldros; passou por um picadeiro em Caneças na mesma função, onde só esteve seis meses, (…) “estava fora do meu ambiente e então decidi voltar a Samora. Como o meu pai estava na Casa do Senhor Conde Cabral, o Senhor Rafael Vilhais -- pai do Rafael que lá está agora -- mandou-me chamar e... aceitei um lugar na cocheira para montar os cavalos. Entretanto, o maioral das vacas saiu. Fui ter com o Senhor Rafael e pedi-lhe o lugar. E disse ao Senhor Conde, ao D. Jacinto: - se o senhor não me deixa ir para as vacas então vou-me embora da Casa. O senhor Conde aceitou. Estive treze anos como maioral das vacas bravas. Tenho recordações desse tempo... eu tentava as garraias e os toiros. Trazíamos o gado bravo desde o pé do mar, para enjaular no Monte de Bate Orelhas. Campinava-se bastante e qualquer mudança de gado era acompanhada a cavalo. Tentei muita rês naquela Casa. Um belo dia apareceu o Mestre David Ribeiro Telles com cinco toiros para serem tentados. Estava apalavrado um picador para ir tentar aqueles toiros; só que eles eram grandes e pesados, e o picador, ao que parece, não esteve pelos ajustes... estava lá nesse dia o João Ribeiro Telles, que disse logo: -- “Não há problema que o Paulino tenta os toiros”… e assim foi. O D. Eduardo Cabral veio ter comigo… - “Oh Paulino não te importas de tentar os toiros?” E claro, eu respondi : -- eu não me importo, D. Eduardo ... é preciso é mandarem-me. Apurámos três, dos quais dois ficaram para o senhor Conde e um voltou para o senhor David”, os outros foram morrer...

O Francisco Paulino entretanto passou pelas marinhas de sal. A de Vasa Sacos ficou-lhe na mente. Mas mesmo aí não perdeu a ligação ao gado, pois as sessenta éguas que pertenciam à herdade ficaram sob a sua tutela. Por lá passou oito anos. A Casa de João Lopes Aleixo veio numa sequência natural e o Francisco deslocou-se para Coruche. O excesso de trabalho levou--o ao cansaço e teve que ser hospitalizado... “tive quase a bater os engaços” (...) “mas o actor nunca morre...”. A Casa Prudêncio ofereceu-me, depois de já estar recuperado, uma oportunidade e convidou-me para a ir para a Herdade dos Caniçais. Estive lá pouco tempo porque o Eng. Rosa Rodrigues andava a pedir-me para eu aceitar o lugar de maioral das vacas bravas, o que me levou a mudar mais uma vez de patrão. Pedi desculpa ao patrão João (Lopes Aleixo) e saí. Fui para Vale Carneiro. Voltei para as terras da minha meninice, (...) mas ...passado pouco tempo começaram a aparecer dificuldades e vim-me embora. Falei com o senhor Professor Potes, que era administrador da Companhia das Lezírias... (...) a única pergunta que me fez foi se eu era capaz de lidar com vacas. Passei lá vinte anos. Saí no fim de Abril de 2005.

De rija têmpera, o Francisco Paulino regista na sua história de vida algumas notas particulares. - “Na Casa do Senhor Conde Cabral andávamos a tirar os toiros das vacas, ...o cavalo em vez de saltar a vala meteu as mãos lá dentro, deu uma cambalhota, fui de rojo, bati com a cabeça nem sei onde, perdi a orientação e, ainda meio tonto, levantei-me e comecei a andar para a banda do toiro; então os outros campinos tiraram o toiro do meu caminho (...) a seguir caí para o chão e tive um desmaio. Fui para o hospital, fui observado, mas estava tudo bem. Outra vez estava a pôr um brinco num bezerro que começou a berrar... e a vaca arrancou comigo ( ...) não tive outro remédio senão fugir.... a única solução foi pegá-la de costas. E depois para sair da cabeça dela aproveitei quando ela saltou uma vala: - larguei-a e deixei-me cair dentro da aberta. Fiquei com o colete rasgado e o corpo cheio de nódoas negras”.

Ainda (...) “Há cerca de dez anos estávamos em Braço de Prata, havia lá uma festa da Companhia, e quando aquilo acabou fomos ver os toiros da Adema a passar de um lado para o outro da estrada de Alcochete. Um dos toiros voltou para trás. Os cabrestos estavam de um lado e o toiro do outro. Era preciso abrir o portão para os cabrestos passarem para o pé do toiro. Bem (pensei eu) vou lá abrir o portão! Assim que o toiro me viu!... oh abre!!!... que ele aí vem ... arrancou comigo mas eu tinha os sapatos finos calçados – os sapatos da farda - escorregaram-me os pés... o toiro apanhou-me, levei uma tareia, quase que me arrancou a orelha esquerda, esfarrapou-me e fiquei como morto. Não me matou porque não calhou. Quando os bombeiros me agarraram ouvi alguém dizer – este já cá não volta... se voltar é dentro do caixão. Estive meses até recuperar. “Para mim o gado bravo é tudo... antes quero morrer na cabeça de um toiro que doutro acidente qualquer!”

Ainda estava na Compnahia das Lezírias tive um outro acidente : - eu e um rapaz íamos atrás de um bezerro para o agarrar, o meu cavalo caiu comigo, deu uma cambalhota, fiquei debaixo dele, só consegui de lá sair com grande esforço. Acabei por ter que ser operado. E agora já não posso montar muitas horas seguidas…”

Actualmente é maioral da ganadaria do Engº Jorge de Carvalho.

Conhece todas as praças de toiros do país e em quase todas recolheu corridas. Participou na inauguração da praça de Cascais na recolha dos toiros juntamente com o António Afonso, com o jogo de cabrestos da Casa Conde de Cabral. Considera-se um campino à moda antiga e o gado bravo é a sua paixão.

Sérgio Perilhão , 07-08-2008

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